Entrevista André Sá: “o meu maior ensinamento nos Estados Unidos foi aprender a competir”

O mineiro André Sá, recém aposentado do tênis profissional, é daqueles exemplos de unanimidade dentro do meio esportivo. Não há quem fale mal ou que não ache que André é um dos personagens mais queridos do meio do tênis. Para se ter uma ideia do prestígio dele, o primeiro depoimento no vídeo que a ATP fez especialmente para sua aposentadoria é de Rafael Nadal.

Atualmente treinando Thomaz Bellucci e trabalhando como consultor para a Federação Internacional de Tênis (ITF), André continua bastante envolvido no meio tenístico, então é alguém que pode fazer ótimas análises sobre tendências do esporte.

Em entrevista gentilmente cedida à Daquiprafora, André dá sua opinião sobre a cultura do brasileiro no esporte, sobre o jogo de quadra rápida e até opina sobre o nível de inglês de Nadal. Confira abaixo:

 

Daquiprafora: Qual a sua opinião com relação ao novo circuito de transição da ITF? Seria mais indicado um garoto saindo do juvenil ir para a universidade nos EUA por um tempo e depois entrar no circuito mais maduro?

André Sá: Isso vai depender muito do nível do jogador. Eu gosto da opção de ir para a universidade por um tempo e depois tentar o circuito, mas a vontade de melhorar e o comprometimento com os objetivos tem que estar presentes qualquer que seja a situação. A transição sempre vai depender do nível do jogador, quanto melhor o nível, mais fácil a transição, mas é preciso ter principalmente bons profissionais ao redor (treinadores, preparadores físicos, etc.).

Daquiprafora: Você passou mais de 20 anos no circuito da ATP, conviveu com muitos jogadores. Em sua opinião, jogadores que fizeram faculdade têm algum diferencial?

André Sá: Com certeza os jogadores que fizeram faculdade têm um conhecimento maior do ambiente fora do tênis. Eles têm mais desenvoltura para falar de outros assuntos e uma experiência de vida diferente.

Daquiprafora: Por que mais brasileiros não optam pelo caminho do universitário? O que você acha que deveria mudar no pensamento deles, considerando que os americanos e mesmo alguns europeus (e australianos) enxergam a faculdade como plano principal?

André Sá: Acredito que por falta de cultura e conhecimento, isso gera um pouco de medo de saírem de casa. O brasileiro em geral é muito próximo da família e essa mudança não é fácil. Fazer com que o jovem entenda isso sem ter alguma referência de alguém que esteja lá fora é complicado. E os pais também são muito protetores aqui no Brasil. São desafios difíceis de superar para um jovem.

 

Daquiprafora: Em sua opinião, quais melhoras técnicas o jogador pode desenvolver estudando nos EUA?

André Sá: Da minha experiência a melhor coisa de ir para os EUA foi que aprendi a competir (André estudou na academia de Nick Bollettieri quando adolescente). Muitos acham que viver nos EUA é fácil porque tudo funciona, mas a verdade é que é conveniente e não fácil. Valorizar cada momento e saber que trabalhar duro é algo totalmente normal lá. No tênis especificamente você aprende a jogar em quadras duras, aprende a ser agressivo, aprende a volear, desenvolver uma autoconfiança e postura positivas.

 

Daquiprafora: Muita gente fala que nos EUA o tenista vai treinar pouco (em faculdades americanas, dificilmente treina-se mais do que 4 horas no dia). Em sua opinião, isso é muito pouco para o desenvolvimento do tenista de competição?

André Sá: Não é pouco não. Vai depender de como você aproveita essas quatro horas de treino. E principalmente se tem um bom treinador te auxiliando. O treinador é uma peça chave nessa equação.

Daquiprafora: Você não fez faculdade nos Estados Unidos, mas passou boa parte do tempo de adolescente lá. Se pudesse voltar atrás, teria aceitado alguma das propostas que teve?

André Sá: Acho que não faria nada de muito diferente, mas pensando hoje acho que seria bem interessante passar pelo menos um ano no tênis universitário.

Andre Sá, Torneio Aberto do Brasil ATP 250, Ginásio do Ibirapuera, São Paulo SP, 28/02/2018, Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Daquiprafora: Você deve ter amigos que fizeram faculdade nos Estados Unidos e se aposentaram. Pode citar alguns exemplos do que alguns fazem depois que a vida de tenista acabou? 

André Sá: Sim tenho vários amigos que se formaram através do tênis em faculdades americanas. Meus dois mais próximos são o turco Efe Ustundag e o francês Cedric Kauffmann. Moramos juntos da época do Bollettieri e hoje eles são treinadores principais de Rice University e University of Kentucky, duas das principais universidades do país. Entre os brasileiros tem o Bruno Rosa, Diego Cubas, Bruno Semenzato e Ramon Simonetti. Todos eles trabalhando em áreas que se não fosse a oportunidade que o tênis universitário os deu dificilmente teriam chegado lá.

Daquiprafora: O quanto que falar inglês fluentemente te ajudou na carreira? Há exemplos por aí de ótimos tenistas brasileiros no circuito que não falam inglês.

André Sá: Falar uma outra língua fluentemente e ter o contato próximo com uma outra cultura são ferramentas muito importantes na vida, tanto esportiva quanto corporativa. Eu hoje estou tendo oportunidades de trabalho depois de terminar minha carreira que se não falasse inglês fluente, nunca iriam aparecer. E no circuito faz muita falta não falar inglês, viajamos o mundo inteiro e sem poder se comunicar direito você perde muito. Até o Rafael Nadal se falasse inglês um pouco melhor teria contratos de patrocínio muito melhores. 

 

 



Comentários