Entrevista: Gabriel Decamps e sua experiência no tênis universitário dos Estados Unidos - Daquiprafora | Faculdade nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido

Entrevista: Gabriel Decamps e sua experiência no tênis universitário dos Estados Unidos

Em 2017, o paulista Gabriel Decamps, de 18 anos, era considerado uma das maiores promessas do tênis brasileiro para seguir no profissional. Durante a carreira juvenil, Decamps conquistou resultados importantes (foi campeão de dois torneios G1, ganhou o GB1Sul-Americano em duplas, participou da chave principal dos quatro Grand Slams juvenis, além de obter vitórias sobre vários jogadores de ponta no nível juvenil da ITF).

Ao invés de seguir o caminho tradicional para passar por sua transição para o tênis profissional, que é o longo caminho dos torneios futures, Decamps optou por aceitar uma bolsa de estudos da University of Central Florida, localizada em Orlando. As longas semanas na Turquia, Tunísia, Portugal, Argentina, América Central (locais tradicionais usados pelos brasileiros em busca de pontos) não acontecerão para Decamps, pelo menos agora. No calendário do paulista, estarão eventos em quadras rápidas americanas, alguns válidos pelo circuito universitário e outros válidos pelo circuito de futures da ITF.

No passado, tenistas brasileiros como Carlos Kirmayr, Dacio Campos, Ricardo Acioly, Nelson Aerts, João Soares (todos ex-top 100 ou de simples ou de duplas) fizeram esse caminho e posteriormente obtiveram sucesso em suas carreiras. Hoje em dia, poucos brasileiros do mais alto nível juvenil mudam a rota tradicional para seguirem esse caminho (tanto que Orlando Luz, Felipe Meligeni, João Menezes, Rafael Matos, Igor Marcondes, Marcelo Zormann, todos juvenis de destaque, não elegeram a universidade como alternativa e atualmente estão no circuito de futures). No caso mais recente de brasileiro passando pelo circuito universitário para depois ir jogar profissionalmente, Henrique Cunha (graduado pela Duke University e hoje funcionário da XP Investimentos) precisou abandonar a carreira depois de uma grave lesão no ombro. Cunha chegou a 240 do mundo depois de formado.

Em entrevista gentilmente cedida à Daquiprafora, Decamps conta um pouco sobre sua rotina, expectativas, diferenças entre o tênis brasileiro e o universitário, além da mentalidade dos treinadores:

 

Daquiprafora: Gabriel, você teve uma ótima carreira como tenista juvenil e, por conta disso, criou-se uma expectativa em cima de você e sua decisão de ir para o tênis universitário foi bastante comentada (para não dizer criticada) no tênis brasileiro. Você poderia nos explicar um pouco sobre essa decisão e os principais motivos que o levaram ao tênis universitário?

GD: Foi uma decisão muito difícil para mim, porque no começo eu realmente não queria ir. O juvenil não é uma garantia de nada. Muitas pessoas falaram que não era a melhor opção para mim e até falaram que se fosse, eu poderia esquecer de ser um tenista profissional. Muita coisa estava passando na minha cabeça, pois como o Brasil está em uma crise muito grande, estava muito difícil meus pais bancarem minha carreira, mesmo com a ajuda da CBT. O treinador da faculdade (John Roddick, irmão mais velho de Andy) me ofereceu um belo plano de carreira, me dando uma bolsa de 100% para treinar em um dos melhores centros do mundo, na USTA. Posso jogar futures e treinar com os profissionais que treinarem aqui. Acredito que isto é muito importante, porque você consegue elevar seu nível treinando com pessoas melhores que você. Fora isso, posso ter um diploma universitário, que também é muito importante, pois você nunca sabe o que pode acontecer. Estes foram os motivos da minha vinda. 

Daquiprafora: O que você tem achado da experiência até o momento? Qual seu parecer com relação ao nível do tênis universitário?

GD: Minha experiência no momento tem sido muito boa. No começo senti bastante dificuldade de adaptação, pois sai da minha zona de conforto. O nível é bem forte, todos jogadores são   muito competitivos, brigam até o ultimo ponto. Eu nunca pensei que o nível fosse tão alto.

Daquiprafora: Como tem sido sua rotina de treinos na UCF?

GD: Minha rotina na faculdade é bem puxada. Todos os dias acordo 6:30 da manhã. Treinamos das 8:00 às 11:30. Em seguida fazemos o físico das 12:00 às 13:00. Aí eu almoço, e às 15:00 faço meu trabalho individual (cada atleta trabalha individualmente suas necessidades de jogo nessa hora individual) até 16:00. Mais à tarde estudo. Tenho aulas das 18:00 às 20:00. Às 16:30 tenho um tutor que me ajuda com as matérias. Essa é minha rotina esse semestre

Daquiprafora: Pode comentar a estrutura e nível de treinadores que você tem disponíveis aí?

GD: A estrutura que estou tendo é muito boa. O nível dos treinadores é muito bom (além de Roddick, Matt Walters, que dava treino na IMG Academy, trabalha com os tenistas masculinos da UCF), eles sempre dão a maior forca para você melhorar seu jogo e também como pessoa. Eles prezam muito a disciplina e a postura dentro da quadra.

Daquiprafora: Como está a questão da transição para quadras rápidas, já que você passava a maior para do ano jogando no saibro?  O que essa experiência em quadra rápida tem te ensinado a mais?

GD: Eu sempre gostei muito de jogar em quadras rápidas, então não foi tão difícil para mim. Tenho evoluído bastante meu saque e meu jogo de rede, porque acredito que são áreas muito importantes para você seguir crescendo seu jogo.

 

Daquiprafora: Escuta-se muito no Brasil que o tênis universitário não serve como um passo em direção ao tênis profissional para os brasileiros, que nossa cultura não permite que sigamos com o tênis profissional depois de passarmos pelo College. Você segue com planos de jogar profissionalmente depois de passar pelo sistema universitário?

GD: Antes de vir para os Estados Unidos eu pensava a mesma coisa, pois pessoas colocaram coisas na minha cabeça. Acredito que isso é a maior mentira e que as pessoas que estão falando isso não têm a maior ideia de que estão falando. Elas nunca vivenciaram o tênis universitário para saber. Hoje em dia o tênis é um esporte no qual o jogador chega no top 100 aos 24, 25 anos. Ou seja, após o juvenil demoram de cinco a sete anos para chegarem. Nesse tempo, você gasta muito dinheiro e sem a garantia que você consiga chegar. Se você for para uma boa universidade, você pode continuar a evoluir seu jogo, sair com um diploma e jogar profissional. Claro, meu sonho sempre foi ser jogador profissional e não vou desistir de jogar, estou aqui para isso! O importante é a jornada e não o destino dela. É seguir evoluindo todos os dias independente de onde você estiver, cada um tem seu caminho e tempo. (desde que chegou aos EUA, em agosto de 2017, Decamps jogou 6 torneios futures)

Daquiprafora: O que você diria aos juvenis brasileiros que estão se aproximando de tomar uma decisão entre tênis profissional e tênis universitário?

GD: Eu diria para que vejam com bons olhos uma ida ao tênis universitário. Que pensem bem, pois é uma escolha muito importante que pode fazer uma grande diferença. Acho que além do tênis, o estudo também é muito importante para a formação de um ser humano. A gente, que é tenista, sabe que este esporte é cruel e que às vezes é bom tirarmos a cabeça do esporte para fazer outras coisas. Com mais conhecimento, você ajuda sua mente e amadurece como pessoa.



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