Planejamento para faculdade no exterior com o câmbio em alta

Por Gustavo Cerbasi

Todo planejamento se inicia com um sonho. Quando fazemos as contas, avaliamos os prazos e estimamos nossos sacrifícios, o sonho se transforma em objetivo. A partir do momento em que estratégias são traçadas para que o objetivo se concretize em diferentes cenários, temos, então, um planejamento. Em outras palavras, não basta ter sonhos. É preciso adotar as estratégias corretas para que eles se transformem em realidade.

Quando o cenário é de mudanças intensas (fato comum no Brasil), estratégias que costumam dar certo deixam de funcionar. Novas estratégias devem entrar em cena. Há até pouco tempo, para um filho estudar fora do Brasil bastava aos pais avaliar preços, organizar o fluxo de caixa, poupar a reserva necessária e administrar as emoções de ver o filhote saltar para fora do ninho. Hoje, com o câmbio em novo patamar e ainda com risco de alta, as emoções se multiplicam. A alta nos preços, causada pelo salto no câmbio de mais de 50% em poucos meses, tem levado muitas famílias a desistir de um projeto que já era dado como executado.

Se estivéssemos tratando da compra de um automóvel, faria sentido repensar e trocar um modelo importado por um nacional, ou com um padrão de conforto inferior. O mesmo valeria para a moradia, em que um gasto maior com decoração pode compensar a necessidade de economia no tamanho do imóvel.

Porém, estamos tratando de um projeto de formação educacional e cultural dos filhos. Se a decisão fosse por estudar no Brasil, discutiríamos o cabimento ou não de optar por uma escola bilíngue, ou por uma metodologia restrita a escolas elitizadas. Uma vez que a família ponderou e decidiu sobre as oportunidades que se multiplicam quando viabilizam a seus filhos uma educação multicultural, que os prepara para o mundo e não apenas para um mercado eternamente em crise, que os forma dentro da ética e da cidadania globais, abrindo mão da alegria de estar fisicamente ao lado deles nesse processo de decolar para a vida, não se trata apenas de uma ponderação de custos.

Estamos tratando de oferecer aos filhos o melhor em educação e referência social, nos últimos passos em que podemos contribuir efetivamente antes que eles se tornem adultos e passem a percorrer independentemente seus caminhos. Estamos tratando de proporcionar melhores referências e melhor capacidade de fazerem suas próprias escolhas – escolhas que podem, inclusive, incluir a possibilidade de retornar ao Brasil com uma bagagem diferenciada para que sejam agentes transformadores. É como um investimento que, em vez de ter seu resultado medido pelo retorno financeiro que nós, pais, teremos, será medido pelas múltiplas oportunidades que nossos filhos terão a partir dessa escolha.

Temos, aqui, um sonho que virou objetivo, e que precisa de uma estratégia para garantir seu planejamento. Partamos, então, do princípio de que mesmo com a crise, com a alta do dólar e com incertezas sobre o futuro, não desejamos abrir mão da significativa oportunidade de desenvolvimento para nossos filhos. O objetivo é garantir o custeio da preparação antes do início do curso e os quatro anos de estudo na universidade.

As medidas necessárias para garantir esse projeto dividem-se em cinco etapas:

 

Sacrifícios para acumulação

Costuma-se dizer que, a uma certa altura da vida, não é mais hora de fazer sacrifícios. Considero essa reflexão um grande engano. Nossas conquistas na vida contribuem para que evitemos alguns sofrimentos, porém o sacrifício, quando fruto de planejamento, pode ser uma prática muito interessante. Quem não topa sacrificar o consumo por alguns meses para conseguir fazer uma viagem interessante? Ou para renovar a decoração da casa? Ou para fazer uma surpresa para celebrar 25 anos de casamento?

Se o grande projeto familiar sairá mais caro do que inicialmente previsto, reúna a família, abra o jogo, combinem esforço em equipe para alcançar o objetivo, e estabeleçam o prêmio ao final da gincana. Para o filho que sairá em viagem, o prêmio será a realização de seu sonho. Para os que ficam, será uma viagem de fim de semana em família, por exemplo. É melhor sacrificar um pouco mais e viabilizar prêmios para todos. Caso contrário, os demais membros da família podem se sentir prejudicados pelo esforço e talvez não colaborem – mesmo que inconscientemente.

Quanto maior o prazo de preparação (algumas famílias começam a se preparar três anos antes do início do curso universitário), melhores serão os resultados do sacrifício, mas também mais difícil será manter a disciplina. Não se esqueça de reunir o time de tempos em tempos, avaliar os resultados alcançados e reconhecer os esforços de cada um. Motivação é o alimento da disciplina!

 

Multiplicação eficiente

Atenção aos investimentos! Avalie cuidadosamente as alternativas que seu banco oferece, e não despreze oportunidades oferecidas por outros bancos, principalmente os bancos menores. Lembre-se que instituições menores precisam se esforçar mais para conquistar e manter clientes, e por isso tendem a oferecer produtos de desempenho mais vantajoso. Se deixarmos de lado os investimentos especulativos como fundos de ações, os produtos conservadores são, via de regra, mais eficientes em instituições de menor porte. Você teme a falência de bancos menores? Lembre-se que saldos de até R$ 250.000 investidos na maioria dos produtos de renda fixa são protegidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o que significa a garantia dos recursos mesmo em caso de quebra ou intervenção na instituição.

Pequenas diferenças no rendimento podem fazer boa diferença no final de dois ou mais anos. Por exemplo, R$ 1.000 aplicados mensalmente em um investimento que rende 0,7% ao mês resultarão em R$ 26.217 ao final de dois anos. Se o rendimento médio mensal for de 1,0% ao mês, o resultado sobe para R$ 27.243.

Aplicação de R$ 1.000 mensais
  Após 2 anos Após 3 anos
Resultado com rendimento de 0,7% ao mês R$ 26.217,17 R$ 41.066,47
Resultado com rendimento de 1,0% ao mês R$ 27.243,20 R$ 43.507,65

 

Outro exemplo: se R$ 80.000 estiverem aplicados com rendimento de 0,7% ao mês, permitirão saques mensais de R$ 1.968 ao longo de quatro anos. Se o rendimento for de 1,0% ao mês, os saques mensais subirão para R$ 2.107.

R$ 80.000 aplicados hoje, visando saques mensais por 4 anos
Com rendimento de 0,7% ao mês R$ 1.968,09
Com rendimento de 1,0% ao mês R$ 2.106,71

 

Defesa contra o câmbio

O Calcanhar de Aquiles do nosso planejamento é a incerteza quanto ao câmbio. Devemos, portanto, eliminar esse problema o quanto antes. Isso se faz comprando dólares regularmente, e intensificando as compras nos períodos em que o câmbio recua e o real se valoriza. Há quatro caminhos mais comuns utilizados para se defender da variação cambial:

1. Comprar regularmente dólar ou a moeda do país em que o filho estudará. Uma vez que US$ 100 são comprados, você continuará tendo US$ 100 independentemente de variações no câmbio. O mesmo vale para a inserção de créditos em cartões pré-pagos – atente, porém, para o prazo de vencimento do depósito feito.

2. Investir em fundos cambiais em bancos brasileiros. Tais fundos investem em títulos lastreados em dólar, o que significa que seu saldo em Reais aumentará caso o dólar aumente, e cairá caso o Real se valorize.

3. Abrir uma conta e investir no exterior.Muitos bancos oferecem isenção de tarifas para quem mantém saldos de pelo menos US$ 30 mil. O custo se limita ao envio das divisas, prática que é lícita e pode ser declarada no Imposto de Renda, da mesma forma que as duas anteriores.

4. Adiantar a quitação de alguns compromissos em dólar. Passagens aéreas podem ser compradas, com bom desconto, pelo menos doze meses antes da viagem, e ainda podem ser parceladas em reais (sem o risco cambial). O pagamento antecipado de aluguéis costuma garantir não só a defesa contra o câmbio, m as também bons descontos.

O objetivo, em qualquer das quatro opções acima, não é rentabilizar as reservas, mas sim garantir que o saldo já conquistado garanta o pagamento de algum elemento do planejamento.

 

Inteligência de consumo

Muitas famílias desperdiçam uma boa oportunidade de economizar nos planos de estudar fora, ao desprezar a oportunidade de ganhar milhas com o uso do cartão de crédito. O típico padrão de consumo e relacionamento bancário de uma família que planeja o estudo de filhos no exterior a qualifica para adquirir cartões de fidelização que rendem milhas aéreas, geralmente sem a necessidade de pagar anuidades. Trechos aéreos só de ida ou de volta podem ser adquiridos com certa facilidade com apenas 30.000 milhas acumuladas, desde que se tenha alguma flexibilidade na data da viagem e se pesquise oportunidades com alguma regularidade. 30.000 milhas equivalem a um consumo de cerca de 20 mil dólares em um cartão de crédito que acumule 1,5 milha por dólar gasto. Portanto, organize-se e concentre seus gastos no cartão de crédito!

 

Plano B

Se o valor de seu objetivo pode mudar e suas possibilidades de acumulação, de investimentos e de milhas estão esgotadas, tenha em mente um ou mais Planos B para adequar o planejamento de última hora. Por exemplo, um automóvel pode ser vendido ou refinanciado, para gerar caixa e ser reposto com juros não muito elevados. Pode-se também pedir um empréstimo com imóvel oferecido como garantia, o que viabiliza recursos com juros próximos dos praticados nos financiamentos imobiliários. Você é contra dívidas? Eu também. Mas, quando o crédito é usado para gerar renda ou para viabilizar projetos de vida, o nome a ser adotado é alavancagem. Alavancar é contar com recursos de terceiros (a alavanca) para realizar o projeto que nos trará resultados positivos que não conseguiríamos se contássemos apenas com recursos próprios. Perceba a diferença entre alavancagem e dívida: o projeto deve gerar resultados financeiros positivos. Use o crédito, portanto, com consciência e ponderação.

Colocando em prática as estratégias que apresento, seu planejamento tem ótimas chances de ser bem-sucedido, mesmo que com o objetivo custando mais caro do que o inicialmente planejado – o que é perfeitamente aceitável quando não se trata de consumo, mas sim de um projeto de vida.

Aos conscientes, bom proveito! Seus filhos terão uma vida inteira para colher e agradecer!

 

Gustavo Cerbasi (www.maisdinheiro.com.br) é especialista em educação financeira. Twitter e Periscope: @gcerbasi. Facebook: Gustavo Cerbasi (Oficial). Instagram: @GustavoCerbasi



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